A ação da cafeína como substância termogênica

Por Diane Benini
Nutricionista Clínica e Esportiva

Por ser um dos objetivos mais comuns entre praticantes de exercício e entre aqueles que seguem diferentes tipos de dietas, as estratégias de perda de peso e de redução de gordura corporal são assuntos polêmicos, controversos, cercados de mitos e teorias. É neste contexto que o consumo dos “suplementos termogênicos” é tão comum.

Inicialmente, vamos definir o que são termogênicos: como o próprio nome sugere, são substâncias capazes de aumentar o gasto energético por meio do aumento da produção de calor. Porém, alguns suplementos podem conter na sua formulação algumas substâncias cujo efeito não é exatamente este, mas que podem levar à perda de peso e/ou gordura, como inibidores de apetite, promotores de saciedade e substâncias que dificultam a absorção intestinal de alguns nutrientes.

Para que uma substância seja considerada termogênica ela deve atuar nas mitocôndrias, tornando a conversão da energia dos alimentos em energia química menos eficiente, ou seja, aumentando a produção de calor e, assim, diminuindo a quantidade de calorias removida dos alimentos. Como assim? Os alimentos são transformados em energia química nas mitocôndrias e essa ação pode ser menos ou mais eficiente, dependendo de diversos fatores. O aproveitamento da energia dos alimentos é maior, quanto mais eficiente for essa conversão (mais calorias são extraídas dos alimentos). Portanto, para que os alimentos pudessem “engordar menos” (ou seja, fornecer menos calorias), obrigatoriamente deveria haver uma maior produção de calor.

A cafeína é um dos suplementos alimentares mais populares, justamente por possuir efeitos positivos comprovados sobre o desempenho físico e esportivo, além da alegação de substância termogênica. Vamos entender: a cafeína é uma molécula encontrada em alguns alimentos, como o café, alguns tipos de chá e chocolate. O pico de cafeína no plasma é atingido cerca de 30-60 minutos após o seu consumo (é rapidamente absorvida pelo intestino), e retorna aos valores normais algumas horas após a ingestão. A sua ação sobre o organismo acontece por alguns mecanismos, sendo um dos mais relevantes o bloqueio de um tipo de receptor que está localizado em diversos tecidos, como cérebro, coração, vasos e tecido adiposo. A cafeína, sendo um inibidor desses receptores, tem ação oposta às suas funções quando são estimulados; após seu consumo, nota-se aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, aumento das transmissões sinápticas (esclarecendo o “estado de alerta”) e aumento da lipólise (este é o efeito que todos buscam na tentativa de perder peso e gordura).

No entanto, o fator determinante para o ganho ou a perda de peso é o equilíbrio entre a energia consumida e a energia gasta, não dependendo apenas da lipólise. Além disso, a quebra e a queima de gordura são processos independentes: quebrar gordura não significa que tal gordura será queimada.

Entretanto, a cafeína também possui a capacidade de aumentar o gasto energético. Este efeito é o que poderia auxiliar na redução de peso e de gordura, porém, é um efeito mínimo e de curta duração. Assim que a cafeína plasmática retorna aos seus valores normais, o seu efeito também deixa de ser notado. Aí surge a ideia de ingerir uma dose de cafeína em intervalos regulares para reproduzir o efeito de aumento do gasto energético. Até que a ideia tem sentido, porém, a cafeína possui “efeito de dessensibilização”, quando ingerida com certa regularidade. Ou seja, seu consumo frequente exigiria doses cada vez maiores para que os mesmos efeitos fossem notados. Assim, para se alcançar pequenos efeitos, as doses consumidas seria elevadas.

Em resumo: os benefícios da cafeína como termogênico são muito questionáveis. Fica a sugestão de que se aumente o gasto de calorias praticando exercícios físicos regulares: um método seguro e efetivo. Caso você tenha interesse em conhecer ou fazer uso de substâncias termogênicas, busque algum profissional que possa orientá-lo da melhor forma. Mas lembre-se: bom senso e moderação ainda são as melhores “pílulas” do emagrecimento.

 

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